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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Guia Universal de Detecção de Mary-Sue

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Guia Universal de Detecção de Mary-Sue

Texto by: Rakesh. Forum LevelUpGames.

"Long time no see, folks! Infelizmente, é o Rakesh de novo. Pesadelos.
Não tenho certeza em qual secção se enquadraria este teste, então decidi colocar aqui mesmo. Se fiz mal perdoem-me.
Fiz este teste tirando algumas coisas interessantes na Internet, e traduzindo-os para inglês. Desculpem-me se a tradução ficou meio estranha ou difícil de compreender. Qualquer erro ou dúvida me avisem, e estarei resolvendo-o assim que puder.

Entrevista 11/12/09

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Zé Repórter: ….........

Raquete: … Você está bem...?

Zé Repórter: … Por que a entrevista mesmo...?

Raquete: Bem... O pessoal gostou dos comentários em forma de entrevista, como fizemos vez passada.

Zé Repórter: Ou quéi... mas por que EU tenho que fazer ESTA entrevista?!

Raquete: Porque você foi a primeira pessoa que apareceu na minha cabeça.

Zé Repórter: Você me odeia, não é...?

Raquete: Hum? Como assim?

Rakesh: O Zé ainda tá com trauma do que aconteceu naquela última vez.

Raquete: Mas já se passaram tantos meses!

Rakesh: Trauma que é trauma não se recupera tão fácil.

Raquete: Não se preocupe, Zé. O pessoal da Forlog não veio hoje.

Zé Repórter: … Aquela mulher também não...?

(Zé olha em volta da sala, e dá um pequeno suspiro de alívio.)

Rakesh: Não. Mas ela vai ler a entrevista depois. Cuidado com o que fala.

(Zé olha para o chão e começa a tremer de novo...)

Raquete: ... Podemos começar?

(Zé abaixa a cabeça, e pega seu caderno de anotações.)

Zé Repórter: Bem... Vejamos... Ressurgiram alguns boatos de que você foi abduzido. O que aconteceu, na verdade?

Raquete: Fui abduzido.

Zé Repórter: Er... Raquete?

Raquete: O que foi?

Zé Repórter: Bem... estou tentando tornar esta entrevista um pouco mais séria, sabe...

Raquete: Mas eu estou falando sério. Olha isto aqui.

(Raquete mostra uma foto dele com seus novos amiguinhos em um lugar desconhecido, com três luas de diferentes cores e tamanhos no fundo.)

Raquete: Os klingons são gente boa. Este é o Divok Linkasa, e este aqui é a Kandel Kelleim. O capitão Kirk também tava lá, mas não quis aparecer na foto.

Zé Repórter:

Raquete: Ah, e lá meu nome é Azetbur. Mas os romulans me chamavam de Ariennye...

Zé Repórter:

Raquete: Só não sei por que os americanos me levaram para um tal de Area 51 quando voltei pra casa. Me soltaram só semana passada...

Zé Repórter: Er... o que eu devo falar numa hora dessas?

Rakesh: O silêncio vale ouro.

Raquete: Ah, e a próxima abdução tá prevista para o final do ano.

Zé Repórter: Existe previsão para abdução agora?!

Raquete: Ué. Recebi uma cartinha de convite ontem...

Zé Repórter: Isso NÃO é abdução!!

Raquete: Mas estou sendo levado pelos etês. Não é abdução não?

Rakesh: Tecnicamente, sim.

Zé Repórter: Por favor, vamos mudar de tema?

Raquete: Claro.

Zé Repórter: O que o levou a escrever este miniconto?

Raquete: Fui procurar um monstrinho qualquer aleatoriamente, em busca de inspiração, e quando vi o Filhote de Lobo do Deserto, veio na cabeça a idéia de uma história sobre um cachorrinho fiel.

Zé Repórter: Mas você poderia escrever a história de um cãozinho fiel de outra maneira. Por que tinha que matá-lo?

Raquete: Não sei. Deu vontade.

Zé Repórter: ...

Rakesh: Você ainda vai ser processado pela Sociedade Protetora dos Animais um dia...

Raquete: Milhares de Porings são mortos por dia, e quem é processado sou eu?!

Zé Repórter: Caham! Hum... Por que essa teimosia por finais tristes nos seus fics?

Raquete: Nem é teimosia. Eu gosto mais de finais tristes mesmo.

Zé Repórter: Você não gosta de contos felizes então?

Raquete: Claro que gosto de contos felizes também. Tanto é que a fic Lumi foi bem feliz. Só prefiro mais os tristes.

Zé Repórter: Por que?

Raquete: Um conto feliz mostra as coisas belas do mundo para o leitor. Já um conto triste destrói as coisas valiosas na frente dele. Adoro essa sensação de mistura de pena e dor.

Zé Repórter: Er... já te falaram alguma vez que você é um psicopata?

Raquete: Não. Não sofro de nenhum tipo de Transtorno de Personalidade Anti-Social.

Rakesh: Ele sofre é de Transtorno Dissociativo de Identidade.

Zé Repórter: … Cuméquié?!

Raquete: Mas sem problemas. Nos comunicamos muito bem, e ainda ganho com isso, porque nós nos ajudamos entre si.

Zé Repórter: Sinceramente não queria estar perguntando isto... mas eles quem...?

Raquete: Deixa eu ver... eu sou o álter escritor...

Zé Repórter: Peraí!! Você não é o principal?!

Raquete: … Tem Rakesh, o álter observador...

(Zé olha para Rakesh com uma cara *insira aqui característica de uma cara idiota*, mas Rakesh coloca seu dedo indicador na frente da boca, mandando-o ficar quieto.)

Raquete: … o álter jogador sumiu no começo do ano. Tentamos buscar ajuda policial, mas não nos fez caso...

Zé Repórter: Ou quéi! Ou quéi! Chega! Entendi! Tenham dó da minha enxaqueca!

Raquete: Mas ainda tem o …

Zé Repórter: Por favor! Chega! Senão quem vai ser levado para o hospício sou eu!

Raquete: Tá bom. Tá bom.

Zé Repórter: E a Forlog, quando vai postar o 2o capítulo?

Raquete: Vou parar a Forlog por enquanto.

Zé Repórter: Vai desistir da Forlog já?!

Raquete: Parar. Não desistir. Odeio ver uma fic minha sem terminar.

Zé Repórter: Mas por que vai parar de escrever a Forlog então?

Raquete: Está ficando difícil demais pra mim. Uma fic histórica, narração em 3a pessoa, participação de uns 20 personagens, dados que coletei... Já estou com um overflow de informações, fora os problemas que aconteceu... Creio que não estou tão preparado assim para escrevê-lo ainda. Mas um dia ainda termino ele.

Zé Repórter: Alguma previsão para uma outra fic pelo menos?

Raquete: Estou dando prioridade a duas principais no momento. Uma é intimamente ligada à fic Lumi, portanto sugiro que leiam Lumi antes, porque ajuda. A outra é uma fic de suspense, já tem Prólogo e 1o capítulo pronto, mas estou com falta de criatividade para botar um nome nele. Provavelmente a de suspense vai ser postada em breve.

Zé Repórter: E sobre o que essa fic fala?

Raquete: Após voltar de mais uma aventura, fatos estranhos acontecem em volta de Alex, Lydia e Harvey. Mortes não param. Mas ninguém consegue encontrar um só vestígio do assassino. E os 3 amigos passam a ser os principais suspeitos.

Zé Repórter: Mas que clichê...

Raquete: Eu sei. Mas creio que algumas partes da fic deve surpreender bastante.

Zé Repórter: Como por exemplo...?

Rakesh: Potential Spoiler Detected. Calling Phoebe.

Zé Repórter: Não! Retiro o que disse! Estamos muito ansiosos pela fic!

(Rakesh deu um pequeno mas macabro sorriso, e voltou para o canto da sala, de onde faz o que sempre fez, observar os outros.)

Angie: Papai! A entrevista não acabou ainda?

(Uma pequena garota entra no quarto.)

Rakesh: Não. Espera só mais um pouquinho.

Zé Repórter: Peraí!! O Rakesh é pai?! Quantos anos você tem?!

Rakesh: A ser explicado em fics futuras.

(Rakesh deu um estranho sorriso, daqueles quando se encontra um brinquedo novo)

Zé Repórter: Aff!

Angie: O que deu nesse tio feio? (aponta para Zé.)

Zé Repórter: Quem, eu?!

Angie: Sim. Você mesmo. (voz de extrema inocência)

Zé Repórter: ...

Angie: É errado ser honesta? (perguntou preocupada)

Rakesh: Não. Você é uma boa garota.

(Rakesh passa a mão na cabeça de Angie, enquanto a garotinha sorri felizmente)

Zé Repórter: O-olha! E-eu tenho esta braçadeira da G.I.E.F.!! Ordeno que retire o que disse!! E Raquete, escreve logo as histórias de Rakesh!!

Raquete: Hã? Mas...

Angie: Paiê~ O que tá escrito nessa braçadeira?

Rakesh: G.I.E.F., creio.

Angie: Tio feio tem letra feia também?

Rakesh: Pelo jeito sim.

Angie: Olha! A braçadeira é feita de papel! E olha a borracha apagando as letras!

Zé Repórter: Aaaaahh!! Pára com isso!!

Angie: E olha! O tio feio usa peruca!

Zé Repórter: Aaaaaaaaahhh!! Devolve!!


- - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


Devido à confusão no local, a entrevista foi interrompida, e eu, Raquete, estou terminando ela em forma de uma narração. Escutando ao que foi gravado, hesito se esta entrevista deveria ser, mesmo, publicado. Não creio que seja necessário entrar em detalhes ao que aconteceu depois. Enfim, Zé pulou da janela de novo, Rakesh foi pegar mais um copo de café, e a Angie ficou jogando pôquer comigo. Sim, uma menina de sete aninhos jogando pôquer. E perdi todas. Só me resta uma dúvida. Aliás, duas. Primeira: qual a probabilidade de sair 7 Royal Flush seguidos? Segunda: o Zé pulou mesmo da janela do vigésimo segundo andar?

Ah, e Divok mandou um oi para todos.

Entrevistas

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Miniconto: Perguntinhas

Pequena, mas quentíssima tarde de verão em Alberta. Mesmo assim, a cidade do comércio não parecia nem um pouco menos movimentada. Ao invés de sair e correr o risco de sofrer insolação em poucos minutos, preferi sentar no confortável sofá e ler um livrinho.

5 Anos

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"Ainda não bolei um nome para este miniconto.

Por enquanto fica assim até conseguir um. Alguma idéia? =]

Enfim, segue abaixo o texto. Críticas e sugestões bem-vindos.

Espero que gostem. ^_^"

Miniconto: 5 Anos


Terminei com ela. Ou melhor. A abandonei.

Todos falam que fui burro, que fui tolo, que não deveria ter feito isso. Que nós formávamos um par perfeito. Infelizmente, não tive outra escolha.

Um dia passou-se. Ela simplesmente se trancava no quarto. Não fazia nada. Apenas deixava as lágrimas escorrer debaixo do travesseiro. Os funcionários da estalagem hesitavam se deveriam mesmo bater na porta.

Três dias passaram-se. Suas amigas a tiraram do quarto à força. Ela precisava comer algo.

Seis dias passaram-se. Ela foi encontrada no Bar de Prontera, em meio a inúmeras garrafas vazias, de incontáveis tipos diferentes de bebida alcoólica. Um noviço, preocupado, lhe perguntou o que houve. Ela simplesmente derramou o que sobrava no copo na cabeça dele.

Duas semanas passaram-se. Embora triste, sabia que deveria continuar. Partiu para mais uma viagem com suas amigas. Na verdade, queria fugir deste lugar, o mais rápido possível.

Três meses passaram-se. Ela despediu-se de suas companheiras, e decidiu ingressar numa pequena Academia de Magia, em Juno. Embora a de Geffen ficasse mais perto de sua terra natal, queria ficar longe dali, inclusive longe de Rune-Midgard. Só mais um pouco.

Um ano passou-se. Melhor aluna da turma, concluiu os estudos da academia em tempo-recorde. Não que fosse realmente inteligente. Apenas não tinha nada melhor para fazer. Ela tentava, sempre, manter-se ocupada. Sem perder tempo, entrou na Universidade de Juno.

Dois anos passaram-se. Lá ela conheceu William. Ele gostava dela. Não era tão arrogante como os outros Sábios. E muitas vezes mais inteligente, mais rico, mais bondoso, mais carinhoso do que eu. Mesmo assim, ela apenas o via como um amigo.

Quatro anos passaram-se. Ela já era uma renomada Sábia. Trabalhava como professora-pesquisadora na universidade. Os grupos de pesquisa que liderava sempre conseguia novidades. Também era admirada por seus impecáveis artigos.

Cinco anos passaram-se. Ela vai se casar. No quarto, ela escrevia os convites. Isto é. Tentava. Escrevia algo no envelope, e rasgava, repetindo esse processo várias vezes, até que os envelopes acabaram-se. Começou a chorar. No destinatário, sempre preenchia, sem querer, meu nome.

Chorava, soluçava, tremia, gaguejava. Os envelopes rasgados perdiam cor, molhados de lágrima. Até William ficou desesperado, não sabendo o que fazer, naquele momento.

Eu queria estar ao seu lado, conversar com ela. Queria pedir desculpas. Queria dar-lhe meus ombros, dar-lhe conforto. Mas não conseguia.

Afinal, morto não fala.

Cinco anos atrás, morri no Feudo das Valquírias, durante a Guerra de Emperium.

Canção de um Filhote de Lobo do Deserto

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Canção de um Filhote de Lobo do Deserto



Não faço idéia do que aconteceu. Tudo que percebi foi um gemido agudo e, após isso, um Lobo do Deserto caído no chão. Quase ao mesmo instante, a alcatéia inteira partiu para cima de um homem, suposto atacante. Os menores, inclusive eu, nos escondíamos ou ficávamos ao lado das mães.

A batalha foi mais difícil e duradoura do que costumava ser. Afinal, aquele homem matou nosso companheiro antes mesmo que qualquer um de nós percebêssemos algo anormal. Embora estávamos com um número esmagadoramente maior, o invasor não parecia se incomodar com isso. Continuava esquivando nossos golpes, enquanto dava flechadas certeiras. Uma das flechas acertou as costas de meu irmãozinho. Mamãe lambia seu ferimento, como se isso fosse capaz de curá-lo, ou pelo menos atenuar sua dor. Ajudei passando a língua no outro lado. Gosto salgado, com um leve cheiro de ferro. Não adiantou. Segundos depois, ele não mais mexia-se. Mas continuávamos lambendo. Mais tarde, mamãe também caiu no chão. Toda a alcatéia tinha sido destruída.

O homem me viu, mas logo mostrou desinteresse. Talvez porque não apresentava ameaça para ele. Guardou o arco nas costas, e sacou uma adaga. Começou a extrair o couro e as garras dos lobos abatidos, e guardá-los num bolso. A cena era aterrorizante. O cheiro dos restos sangrentos castigava meu nariz. Mas não ousei sair de lá. Observava-o cortando e retirando o que era de seu interesse. Depois, com seu trabalho concluído, olhou novamente para cá. Gritou algo, e mostrou-se confuso. Fez um gesto, e me esperou. Não sei como o interpretei naquela hora, mas segui aquele homem.

Dias passaram-se. Ele agia como se eu não estivesse ao seu lado. De vez em quando, jogava os restos de sua comida para mim. Nem eu nem ele ameaçava o outro. Nem brincava, nem atrapalhava, nem ajudava. Apenas seguíamos o mesmo caminho, mas não nos interferíamos. Eu ainda era pequeno, e ele era forte. Tinha certeza de que, ao seu lado, estaria mais seguro.

Porém, tempos depois, as coisas mudaram. Todas as minhas ações passaram-se a ser restringidas. Ele passou uma corrente no meu pescoço, tão pesada, que tive a impressão de sufocar-se. A corrente estava sempre amarrada a algo, ou simplesmente levava na sua mão. Apenas me soltava uma vez por dia, para que pudesse caçar minha própria comida, pois também havia parado de me alimentar. De vez em quando, me dava pancadas, chutes, mas não compreendia o motivo. Mesmo assim, eu sempre voltava. Afinal, já não tinha mais para onde ir.

Uma vez, consegui caçar um Tarou rechonchudo, carnudo, e resolvi presenteá-lo. Mas no momento em que achou o Tarou na sua cama, ele passou a berrar nervosamente. Mas não o compreendia. Naquele dia, fui espancado até desmaiar três vezes seguidos. E passei dois dias sem comer.

Com o passar do tempo, finalmente comecei a compreendê-lo. “Dono” seria ele, “cachorro”, quando me chamava, entre muitos outros. Também descobri alguns jeitos de agradá-lo. Ajudava na caça, atacava a pessoa com quem ele gritava ou encarava feio, pegava despercebidamente sacos e bolsas mal cheirosos de outros... Não entendo o porquê do “dono” gostar tanto desses pedaços de folhas estranhos e pedrinhas redondas, que ele os chamava de “zeny”. Não se come, não se usa, apenas se guarda; não compreendo sua utilidade. Mas quanto mais eu pegava, mais feliz ele ficava, e ganhava minha recompensa, normalmente um pedaço suculento de carne. O trabalho de arrumá-lo era relativamente fácil para mim, já que o distinto cheiro do “zeny” era sentido de longe.

Recentemente, estamos sendo perseguidos por estranhos, vestidos de marrom ou de armaduras grandes e brilhantes. Mas para mim não fazia diferença alguma. Apenas continuo atacando os que apresentarem ameaça ao “dono”. Sempre se assustavam, pois nunca imaginariam que eu fosse pular tão alto, mordendo já no pescoço deles. Hoje mesmo matamos mais um desses perseguidores, e tiramos os carrinhos e bolsas de alguns que passavam por perto nas horas vagas.

Enquanto “dono” ria e tirava os pertences da nossa quinta vítima do dia, os perseguidores surgiram novamente. Desta vez, estão em um número bem maior, cercando-nos em um círculo. “Dono” fez uma cara feia. E a batalha começou.

“Dono” escondeu-se debaixo da terra. Era um de seus truques favoritos. Para que não o descubram, corri pelo lado contrário, e ataquei um dos desprevenidos. O mesmo gosto salgado e cheiro de ferro, como inúmeras outras vezes anteriores. Logo, os outros perseguidores tiravam suas espadas e apontavam para mim.

Agia como as outras vezes, tendo a experiência guiando-me a atacar os pontos onde normalmente eram mais vulneráveis. Mas, desta vez, algo diferente aconteceu. Ouvi um berro, e, em seguida, “dono” caído no chão, com uma espada cravada em seu peito. Imediatamente, corri para lá.

Sua expressão na cara parecia endurecer-se. Seus olhos, vazios. Seu corpo, imóvel. Já não tinha como prender-me ao seu lado. Talvez seja a chance de eu finalmente livrar-se dele? Sem mais ter medo de receber socos quando anda mal humorado, ou ficar sem comer por dias? Sem mais precisar morder alguém sem motivo, ou castigar meu nariz com esses “zenys” e bebidas mal cheirosas? Finalmente, livre?

Não sei o porquê, mas comecei a passar a língua em seu ferimento. O mesmo gosto enjoativo de sempre. Não parava de sangrar-se. Algumas manchas ficavam cada vez mais escuras. Sua pele, cada vez mais fria e pálida. Não parei. O silêncio imperou. Ninguém falava, ninguém discutia, ninguém atacava. Apenas nos olhavam.

De repente, algo gelado e afiado perfurou meu corpo. Doloroso, mas tentei ignorá-lo. Apenas continuava lambendo “dono”, como se isso fosse a única coisa que me importasse naquele momento. Sentia-me cada vez mais frio e cansado, e meus olhos ficarem pesados. Logo, meu corpo não mais permitia-me a continuar.

Abriguei-me entre seu braço e seu peito, compartilhando o pouco de calor que ainda nos sobrava. Desculpa, mas estou sentindo sono. Muito sono. Passei a língua em seu rosto pela última vez, e fechei os olhos.

Boa noite, querido “dono”.


Fim.

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Miniconto: Lições de um Umbaliano



Após todos esses anos de trabalho, resolvi dar a mim mesmo umas semanas de folga como presente. Nesse período de tempo, resolvi viajar. Destino: Umbala. Não sabia o que houve comigo, o que estaria pensando. Afinal, qual outro doido abandonaria todo o conforto e luxo de Lighthalzen para ir a um “fim-do-mundo” desses?

Os habitantes de Umbala eram muito amigáveis. Parecia que já estavam muito acostumados com turistas como eu. Embora nossas culturas e até mesmo a própria forma física do corpo sejam tão diferentes, estavam sempre dispostos a ajudar. Imediatamente, prepararam para mim uma pequena casinha feita de palha, numa das árvores um pouco ao leste de sua tribo, e convidaram-me a participar da dança à noite, ao redor de uma enorme fogueira. Poucos deles realmente falavam a minha língua, então faziam gestos que pareciam saltitantes Pickys, enquanto eu tentava decifrar o que queriam dizer. Trabalhoso, mas divertido.


Um rapaz em particular observava-me. Acho que tinha alguma dúvida, mas, embora seja um dos poucos que conseguia falar minha língua, ficava calado. Finalmente, à noite do terceiro dia, veio me procurar:

- Por que você come?

Achando interessante, resolvi respondê-lo com outra pergunta:

- E por que a pergunta?

- É que você sempre olha para aquela coisa esquisita na sua mão, para então resolver se vai comer ou não.

Ele apontava para meu relógio.

Então resolvi explicá-lo sua utilidade, a relação entre o relógio e o tempo. Ao meio-dia, o sol situa-se bem em cima de nós, e os ponteiros apontam para cima; hora do almoço. Às seis da tarde, o sol se põe, e o ponteiro também aponta para baixo; hora do jantar. Tentava fazê-lo compreender essa atitude um tanto estranha para eles. Chegou a hora, então precisava comer.

O rapaz, então, deu um enorme sorriso (embora nem conseguia ver seu rosto atrás da grande e exótica máscara), como se finalmente resolvesse seu mistério: “Há! Entendi! Você é um adorador do sol. Você come para honrar o sol.”

O conceito do tempo aparentava ser abstrato demais para umbalianos. Descobria que era difícil conversar com ele sobre isso. Resolvi perguntá-lo também:

- E você? Por que você come?

Mas sua resposta simples e direta me pegou de surpresa:

- Deu fome.


Após alguns dias observando-os, descobri que realmente eram assim.

Numa noite, antes de dormir, quis pegar um cacho de bananas, numa pequena colina perto de onde estava, para servir de café-da-manhã do dia seguinte. Mas o mesmo amiguinho não deixava.

- Já que ninguém está faminto, por que não deixar elas em paz, no lugar onde deveriam?

Vendo que não adiantava discutir com ele, não falei mais nada.

Horas depois, era acordado por um barulho estranho. Saí da toca, somente para encontrá-lo descendo da colina, com o cacho nas mãos.

- O que foi? - não sabia se deveria rir ou não.

- Deu fome agora.

Hum... lógico.


No dia seguinte, tinha que partir. Satisfeito, me deu o cacho de presente. Como muitas bananas estavam verdes ainda, resolvi levá-lo comigo, comê-los no caminho à casa, quando amadurecerem. Novamente, o rapaz discordava. Me aconselhava que era trabalhoso demais, visto minha mochila já muito grande e pesada. Resolvi jogar o cacho fora, mas ele balançava a cabeça para os lados mais bruscamente ainda.

- A terra-mãe nos deu essas bananas. Não podemos desperdiça-las assim.

Então, o que deveria fazer? Eis sua conclusão:

- Espera aqui até ficar amarelas.

Olhava-o incrédulo, sem saber como reagir, enquanto ele continuava:

- E por que não esperar? Esperamos a safra chegar, esperamos os frutos surgir nas árvores. Esperamos nossas esposas dar a luz, esperamos os filhos crescer. Esperamos envelhecer, esperamos morrer. Esperamos por uma vida inteira. Por que não esperar umas bananas amadurecerem? Pra que toda essa pressa?

É. Boa pergunta. Talvez já estivéssemos acostumados demais ao ritmo rapidíssimo da nossa civilizada sociedade. Ainda mais numa cidade como o Lighthalzen, onde cada mínimo segundo precisava ser aproveitado ao máximo. Vivemos tão apressados que até esquecemos de pensar de vez em quando, se realmente era assim que a vida deveria ser.

O umbaliano pediu para que esperasse as bananas amadurecerem. Talvez seja um pouco difícil demais para mim, pois realmente precisava voltar.

Não creio que seja necessário esperar tão lentamente e inocentemente como fazem. Mas frear os passos de vez em quando acho que não prejudica ninguém. Quem sabe, numa tarde de domingo, resolve passear um pouco e desfrutar dessa simples e confortável liberdade que é de meu direito.

Obrigado, Umbala.


Fim.

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"Texto inspirado num dos discursos do doutor Hou.

( http://www.crown.com.tw/book/wenyong/aut.htm

Infelizmente, não achei em outra língua...

E não. Aqui não tem a palestra que fui ouvir... )"

Em Quem Acreditar?

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"Miniconto criado hoje, na sala de aula, por falta do que fazer...

Escrito em menos de uma hora, sem passar por revisão detalhada... Só um mais ou menos mesmo...

Uma tentativa meio mal-sucedida de historinha de terror, mas lá vai... -_-''



Em Quem Acreditar


Dia de sol, céu azul, límpido e sem nuvens. Mas isso não importava. Estava partindo para Niflheim. Meu marido tinha participado de uma expedição ao reino dos mortos, uma semana atrás, e não voltara ainda. Simplesmente desaparecera. Consegui contatar seus companheiros da viagem, e eles estarão esperando-me na fronteira entre a Fonte de Hvergelmir e Skellington.


A pequena aventura da aldeia da tribo Wootan até a entrada de Niflheim, passando pelo Tronco de Yggdrasil, foi curta e rápida. Queria encontrar logo meu amado, e verificar se estava são e salvo. E isso fazia-me apressar os passos, inconscientemente.


Porém, ao chegar, tive que me contentar com mais uma má notícia. Dos treze membros que faziam parte do grupo, restou doze. Ou seja, faltou um, e, não sabia se era por azar ou alguma outra coisa, quem faltara era justamente ele.


Segundo o líder do grupo, já no primeiro dia, receberam ataques de inimigos desconhecidos. Durante a batalha, meu marido voluntariou-se a fazer um contra-ataque praticamente suicida. Todos tentaram fazê-lo mudar de idéia, mas não conseguiram. O feito foi um sucesso, e conseguiram sobreviver, com a exceção de uma única pessoa, desaparecida até então. Ficava espantada com a frieza no tom dos aventureiros, quando narravam a história, mas não os culpo. Deviam ter passado por muita coisa estes dias.


Mesmo assim, juntei-me a eles, com esperanças de encontrá-lo. Porém, essas mínimas esperanças sumiam pouco a pouco, assim que íamos atravessando a terra de rochas e gelo. Era quase impossível sobreviver a essas condições naturais tão extremas, ainda mais sem nenhum colega para ajudá-lo.


Acampamos num canto da Vale de Gyoll. Não quiseram acender uma só fogueira, mesmo num ambiente tão frio. Justificavam de que os monstros daqui eram diferentes das bestas usuais que conhecíamos, e que o fogo, além de não espantá-los, os atraem, expondo o grupo inteiro em perigo. Simplesmente arrumavam seus próprios sacos-para-dormir, e cada um acostava-se num lugar, seja numa rocha ou árvores secas e mortas.


Meu sono era interrompido várias vezes por barulhos estranhos. Não sei se era paranóia ou problema só minha, mas, algumas vezes, abria os olhos e via algum membro observando-me. Mas não quis incomodá-los com perguntas desnecessárias.


Algum tempinho depois, levantei-me, pois não conseguia dormir direito. Andei algumas dezenas de passos, ainda a uma distância mais ou menos segura, e olhava para o abismo sem fundo característico no local. Foi quando...


- Vamos! Corre!


Alguém segurava meu braço. Sua mão estava gelado. Virei a cabeça e vi o rosto que tanto conhecia, mas desconhecia ao mesmo tempo. O homem que tanto amava estava lá, com ferimentos, terra e sangue cobrindo o corpo inteiro. Estava um pouco mais magro, e seus olhos estavam muito vermelhos. Mas o que mais me assustara era sua expressão na cara nunca antes vista, repleta de terror, cansaço e nervosismo. Não pude conter meu espanto e gritei.


- Corre! Vamos fugir daqui! - ele insistia. Mas eu simplesmente não sabia como reagir àquilo. - Não estou morto! Fomos atacados no primeiro dia da expedição, e, fora eu, todos morreram! Corre! Antes que descubram!


E agora. Em quem devo acreditar?


Fim

Canção de um Sting

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"Num desses dias (acho que começo de julho), estava vendo os Fanarts de algumas pessoas no site de iRO,
e me deparei com uma dessas ilustrações...
Não sabia o motivo, mas esse trabalho me prendeu bastante.
Meio que numa pequena e bizarra viagem,
resolvi escrever um mini-fic diferente, vistos dos olhos de uma criatura que quase ninguém gosta,
com participação quase zero de players / humanos / etc.
Espero que gostem ^_^
e desculpem-me pelo português um tanto noob... =/"


Num dos calabouços mais fundos de Glast Heim, um monte de lama junta-se e começa-se a tremer, movendo-se estranhamente e, do topo, modelava-se lentamente, até surgir a forma de uma mão humanóide, com 5 dedos. Mais um ser igual ao nosso, mas infelizmente não um amigo ou companheiro.
Como já devem ter percebido, sou um Sting. Um monstro, como vocês nos chamariam. Nem preciso negar isso, pois sou mesmo. Aliás, eu duvido até mesmo se me chamaria de um “ser”.
Como assim, não sou um ser? Bem... é o seguinte...
Stings não se comunicam entre si. Pickys piam uns aos outros, Lobos uivam, Peco Pecos fazem o som “ecoar” pelo bico, Chonchons fazem manobras no ar para transmitir por símbolos, humanos falam e fazem gestos entre si... mas... e Stings...?
Diferente do que a maioria de vocês pensam, não possuímos nenhum tipo de dialeto. Isso simplesmente porque não há necessidade disso. Não precisamos de alimento para sobreviver. Não precisamos ser ensinados ou domesticados antes para conseguir fazer alguma coisa sozinho. Não nos interessamos pelos ferimentos ou mortes de outros. Não possuímos e nem conhecemos a ganância. Enfim. Não temos nenhum tipo de sentimento ou razão forte o suficiente para entrelaçar-nos uns aos outros.
Outra coisa: também não nos reproduzimos. Toda vez que, num certo canto do nosso ambiente, for acumular terra e lama suficiente, uma espécie de magia antiga, abandonada na era dos elfos, fará um efeito de reação em cadeia, e nasce um novo Sting.
Porém, também nascemos para ser mortos mais cedo ou mais tarde. Pelo menos é o que eu penso. Nascemos, andamos sem direção e sem sentido algum, sem objetivo, apenas para, algum dia, um aventureiro aparecer e, sem motivo algum, tirar a nossa vida. Depois, em algum canto deste lugar, nascerá outro Sting, e ocupará o mesmo papel que eu exercia. Triste? Não sei. Porque não sei ao certo o que é felicidade ou tristeza. Não tenho nada para servir de comparação e defini-los direito. Tudo que eu faço é observar, pensar, raciocinar, mas não sentir.
*****
Num desses dias monótonos, pela primeira vez nesses poucos meses de vida, tive uma impressão estranha de mim mesmo. Sem motivo algum, saí da área “infestada” por iguais, e descobri um lugar totalmente diferente.
Não sabia dizer qual era a diferença. Eram as mesmas paredes, o mesmo telhado, teias de aranha, buracos no chão, luzes fracas de velas... Subi uma escada e, meio que “retardadamente”, avistei algo. Difícil descrever esse objeto. Era uma espécie de caixa, grande, dividida em partes desproporcionais, com uma abertura grande para cima em uma das faces que “faltava uma parte”, mas não parecia dar impressão de vazio. Era feita de madeira, e pintada de preto, e de branco e preto nessa face que “faltava um pedaço”, com partes pequenas separadas e voltadas para cima. Sim. Era um piano. Embora não saiba como e onde aprendi essa palavra.
Sem saber o por quê, aproximei-me dele, e apertei numa das teclas. Estava um pouco desafinado, a madeira nos pés dele pareciam quebrar e fazer desabar a qualquer instante, mas não parei. Fui apertando em diferentes teclas, com forças exercidas e silêncio entre os sons de todas as formas diferentes, experimentando cada combinação que pensar naquele momento. Saía uma série de sons que, embora nem compõem uma melodia direito, parecia expressar algo. Era estranho, mas não conseguia parar.
Perdi o sentido do tempo por completo. Não sabia por quanto tempo continuei lá. Será um minuto? Uma hora? Uma semana? Não sei. Só sabia que não conseguia parar. Pensava numa combinação diferente e, quase que instantaneamente, ouvia como essa experimentação saía.
Do nada, sem aviso prévio, parei. Não que a criatividade tinha esgotado, e sim porque avistei algo a alguns metros dali. Era outro Sting. Nada de errado, fora o local e... parecia ver na minha direção...?! De novo, observando-o direito...... Ele certamente estava olhando para mim... e não parecia querer ir embora.
Não sabia o que ele estava pensando, e nem o que deveria fazer. Após alguns segundos, apertei uma tecla fortemente, fazendo o som ecoar pela sala. Depois do eco sumir por completo, lentamente, virei-me para aquele Sting. Mais alguns segundos de silêncio. E, com um leve ar de dúvida, ele aproximou-se. Veio à minha esquerda e apertou outra tecla. E ficou quieto de novo. Era estranho pensar assim, mas... ele estaria esperando minha... resposta...?
Fiz combinação de alguns sons, e parei. Ele respondeu com outra combinação de sons. E ficamos repetindo com muitas outras. Mas sempre alternando entre si. Pouco a pouco, começamos a tocar ao mesmo tempo. Criávamos e experimentávamos tudo que era possível. Os sons começaram a compôr belos ritmos e melodias. Diferentes canções enchiam o ambiente. Pela primeira vez na minha vida, e provavelmente pela primeira vez também na história, houve a chamada comunicação entre Stings. Era uma sensação totalmente nova, desconhecida. Estaria feliz? Não sei.
Esse concerto continuou por muito tempo, mas nenhum de nós parecia querer parar. A música parecia conseguir, inclusive, colorir o ambiente de uma forma distinta.
*****
Vuuuush!
...?
Toc!
Uma flecha de fogo acertava um canto do piano.
...!!!
Mais e mais flechas. Parecia chover flecha. Todas elas tinham suas pontas incendiadas. Tudo começou a pegar fogo - o piano, o chão, a parede , inclusive meu companheiro ao lado.
A música parou.
Desesperado, olhei para trás. Um humano, um pouco mal vestido, com um grande arco na mão e flecha na outra, apontava para mim. Depois disso, tudo tornou-se vermelho. Só via vermelho na frente. Cor forte e brilhante, que parecia demonstrar a agonia que sentia. Um pouquinho mais tarde, o vermelho sumiu. E o que o substituiu foi a escuridão. Uma escuridão permanente, sem limites, sem fim.
*****
Nos mais profundos calabouços de Glast Heim, nasce um Sting. Mais um ser animado e inanimado, acompanhado e solitário; dado o dom de raciocinar, mas incapaz de expressar-se. Um ser à procura da descoberta do sentimento.
*****
Fim
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Canção de um Bongun

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- N-não! Por favor não!
O mago implorava por misericórdia. Lágrimas de desespero enchiam sua cara. Mas não tinha escolha.
- Farei sem dor. - disse, baixinho, incerto se ouvira ou não. Era o mínimo que podia fazer pelo pobre aventureiro.
Com as unhas extremamente afiadas, abri um buraco no peito esquerdo dele, destruindo o coração por completo, antes mesmo que começasse a sangrar. Uma morte rápida, quem sabe indolor, como lhe havia prometido. A mão direita sentia o vermelho líquido escorregar e gotear, aos poucos. Algumas raposas douradas, conhecidas vulgarmente como Nove Caudas, surgiam atraídos pelo cheiro de sangue, saboreando os últimos restos do ser caído no chão; ser que, muitos anos atrás, já fui parte deles.
- Odeio essa vida. - murmurei a si mesmo, embora tecnicamente não estava vivo. Sentia, pela n-ésima vez, vontade de rasgar o Amuleto na testa.


Éramos tão felizes. Você vivia a poucos minutos de minha casa. Lembrava, inclusive, de quando nos conhecemos. Enquanto sua mãe lhe introduzia à minha família, você escondia-se atrás dela. Sem motivo, dei um sorriso, e você me devolveu outro. E tudo começou.
Brincávamos juntos, estudávamos juntos, íamos ao templo juntos. Eu brigava por ti, e você cuidava de meus ferimentos. Quando fugia de casa, eu era sempre a pessoa quem te achava primeiro. Eu tocava o Gumoongoh que seu pai lhe dera de presente, após uma de suas viagens, e você cantava. E como cantava! Fazia brincadeiras comigo porque aquele instrumento musical era feito pra mulheres, lembra? Mesmo assim, sempre me pedia para tocá-lo, de novo.
Se não acontecesse aquela tragédia, aquele dia... o dia em que perdi minha família, meus amigos. O dia em que perdi você.


Cá estou eu, sentado num canto da cidade esquecido pelo tempo, lugar cheio de lembranças, bons e ruins. O radiante sol e o esplêndido céu azul nos abandonara. As grandiosas construções não mais apresentavam a forma como as conhecíamos. O lugar, agora tristemente amaldiçoado, foi inteiramente selado no mais profundo andar de uma caverna. Ouvira um companheiro meu comentar que, recentemente, reconstruíram um vilarejo com o mesmo e familiar nome, do lado de fora. Que Buddha ou qualquer deus estrangeiro dos ocidentais lhes abençoem, que não tenham que enfrentar o mesmo destino que passamos, um dia.


- Pobre e frágil mortal. Quem não pôde partir para Valhala pela morte não gloriosa, e nem para Niflheim, pois nem mesmo Hel te aceitara como um novo cidadão da terra dos mortos. Sinto sua enorme tristeza e o desejo não realizado.
Ouvia alguma voz feminina sussurrar para mim. Abri os olhos. Era uma pequena garota, nua, com parte de seu corpo coberto por pêlos dourados. Pêlos de Nove Caudas. Carregava um enorme sino igualmente dourado. Uma de suas mãos acariciava o rosto de alguma coisa caído no chão, corpo que, poucos atrás, servia como recipiente de minha alma. Mas seus olhos fixavam no lugar onde eu estava. Da outra mão, tirou um Amuleto.
- Isto, é um talismã proscrito que traz a vida aos mortos. Diferente do que vocês, humanos, pensam, isto não cria um corpo sem-alma ambulante. Ele lhe dará uma segunda oportunidade de vida, mas como um morto-vivo, um monstro, uma besta, embora pensante. Terás uma pós-vida árdua e amaldiçoada, mãos sujas de sangue, queira ou não. Mas, se der sorte, poderia realizar seu último desejo pendente, e finalmente descansar em paz. E agora, mortal. Interessado?


Muitos outros companheiros passavam ao lado, mas quase ninguém apresentava vontade de conversar. Todos eles, sim, todos, são semelhantes meus, embora por motivos distintos. Alguns aceitaram por medo da morte, outros porque queriam ver pela última vez a cara de conhecidos, amados... No meu caso...
Do bolso da vestimenta azulada, apanhei um Retrato Velho, que desenhei, eras atrás. Retrato de uma menina, muito bonita. Seu rosto já estava borrado, pois o pergaminho estava muito gasto, tanto pelo tempo como por lágrimas.
No meu caso... foi o amor não realizado.


Lembra da sua festa de aniversário de 16 anos? Seus pais celebravam a filha, finalmente adulta, idade para casar e formar sua nova família. Inúmeros pretendentes apareciam, atraídos por sua incomparável beleza e pureza. Mas não pude participar dessa disputa. Não era tão rico, e nem tão habilidoso, como todos esses homens.
Não. O que faltara não eram riquezas nem habilidades. Era coragem. Tinha medo. Medo de ser recusado. Medo de que, uma declaração minha destruiria essa amizade de mais de 10 anos.

Observei mais alguns Munaks que passavam por perto, com mínimas esperanças de achar o querido rosto da mulher que tanto amava. Um Dokebi ria, ridicularizando meu triste e inútil ato. Já não tinha forças para brigar com ele.
Sabia que era pedir demais reencontrá-la. Mas, pelo menos, queria saber o que você quis me dizer, naquela noite supostamente calma, naquele silêncio antes da tempestade. Queria saber o que você pensava. Isso e mais algumas recordações formam os poucos alicerces que ainda me sustentam.


Naquele dia, você me convidou para passear, pela região inofensiva da floresta, à noite. Disse que tinha algo importante para falar. Lembro até hoje suas lindas e um tanto engraçadas bochechas coradas. Mas...
Mas... antes mesmo de você abrir a boca, o apocalipse escolheu nosso querido lar como próximo alvo. Jamais conseguirei esquecer o vermelho e brilhante fogo que cobria toda nossa cidade natal; a cabeça decapitada do irmãozinho, a mãe banhada em sangue. Você foi buscar seus pais, mas nunca mais voltou. Nunca...


Pequenas e delicadas mãos tocavam meu ombro. Uma singela noviça em torno de 10 anos me olhava. Não demonstrava medo ou ódio como qualquer outra pessoa que enfrentara até hoje. Fiz uma cara horrorosa e mostrei as monstruosas unhas, tentando intimidá-la, espantá-la desse lugar. Não queria matá-la. Já tirei a vida de pessoas demais, nesse dia. Mas não se assustou. Continuava dando toques no meu ombro. Seus grandes e inocentes olhos pretos pareciam querer me dizer algo.
Sem motivo, a levei para um canto vazio, onde nenhuma criatura a atacaria, onde estaria segura. Pelo menos por enquanto. Era um ato estranho, sem precedentes.
A noviça apanhou algo de sua mochila. Um velho livro azul, que me chamara a atenção. Peguei-o e abri a primeira página. Tão logo olhara para as primeiras linhas, não pude conter as lágrimas. Eram letras pequenas e redondinhas, letras tão familiares, de alguém que nunca a esqueceria. Querida, era teu diário.
As notas e registros tinham datas irregulares, mostrando claramente seu caráter um tanto preguiçosa, mas graciosa. O próximo texto poderia datar a um dia, ou um mês. Mas todos eles tinham algo em comum. Todos tinham meu nome escrito neles.
Nunca soube que você me observava tantas vezes, em tantas ocasiões diferentes, dessa maneira especial. Lia rapidamente até chegar, ansiosamente, no último registro.
“... Hoje, decidi declarar meu amor por ele, e que já deveria tê-lo feito há mais de 10 anos. Mamãe ficaria tão brava por essa atitude não feminina. Mas sei que ela me entenderia. Será que ele me aceitaria como sua esposa? Quero estudar história ao seu lado. Quero visitar o templo ao seu lado. Quero que ele toque nossas cantigas com o Gumoongoh somente para mim. Quero cantar somente para ele ouvir. Quero acompanhá-lo pelo resto da vida. Quero...”
Não consegui terminar a leitura. Minha visão já estava borrada demais. Lágrimas enchiam minha cara toda. Por mais que esfregue, mais úmidos ficavam meus olhos. A pequena noviça me abraçava, mas não a empurrei para o lado.
- Posso ficar com ele? - perguntei, mais tarde. Ela concordou baixando a cabecinha. - Obrigado... muito obrigado...


Pois é, querida. Desculpe-me, mas terá que me esperar mais um pouquinho. Agora, viajo com aquela noviça, por todo Rune-Midgard, conhecendo lugares e coisas nunca antes imagináveis. Prometi, a si mesmo, que a irei acompanhá-la e protegê-la, como minha própria forma de agradecimento, pelo menos até achar o lugar onde ela pertence. E eu sei que você concordaria comigo, não? Afinal, ela conseguiu transmitir uma importante mensagem perdida há tantos séculos.
Durante essas viagens, aproveito para saber onde estás, seja no céu que conhecíamos, ou naquele dos distintos ocidentais. Lhe darei minha resposta quando a reencontrar, e sei que ficará feliz por isso. Lhe contarei as aventuras e tudo que era desconhecido por nós. Ali, poderíamos criar, novamente, nossas próprias cantigas.
Espere-me, querida. Já venho.
Fim
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